será mesmo ela?
Os bancos do metro têm um efeito esquisito em mim. Sento-me, ajeito a mochila entre as pernas, tiro o cachecol que vai deixando um rasto de pêlo no caminho e entro no meu mundo. Começo a discorrer pelos temas que me vão apoquentando e os que não são assim tão importantes. O tema que vos vou apresentar escorrega para dentro dessa categoria e, tal como Moisés, vamos separar as águas para conseguirmos passar para outro lado. Tenho uma colega de trabalho que estou constantemente a ver fora do escritório. Volta e meia aparece nos momentos menos esperados com a mesma cara e os mesmos tiques, os óculos vão mudando de armação e o estilo de roupa, mas de resto posso garantir que é ela.
Bem sei que há nomes concretos e explicações científicas para estes fenómenos, caras que são mais comuns, informação extremamente interessante, mas perdoem-me, vamos ter de atalhar e passar ao que realmente nos traz aqui hoje. Confesso-vos a minha teoria um tanto ou quanto esotérica em relação a este caso: estamos perante uma agente secreta. Lembram-se do famoso Perry ornitorrinco de Phineas e Ferb? Acredito que seja um caso semelhante. Ora bem, trabalha numa agência de marketing, diz ela para disfarçar, e tem uma função que lhe permite estar muitas vezes fora, o que corrobora a minha teoria. Ela deve estar em missão na maioria das vezes. Vou dar-lhe um nome falso para podermos prosseguir sem revelar um dos segredos mais bem guardados da história.
A Gertrudes está a salvar o mundo, enquanto nós estamos presos à ideia de que contribuímos cegamente para o mercado capitalista em uníssono. Só que há uma voz que destoa. A Gertrudes passa o dia a salvar vidas em missões perigosas e deve ser por isso que ainda não teve tempo de decorar a maioria dos nomes dos colegas de trabalho. Acreditamos sempre no pior, as conversas espalham-se pelas alcatifas, como as manchas de café, e conseguem criar estes alvos de coscuvilhice. Aposto que se escapuliu imensas vezes sem darmos conta, assim que o relógio de pulso começou a vibrar, recebeu um novo alerta de bandido na área. Invejo-a principalmente porque já deve estar cansada de fazer algo com que eu sempre sonhei, entrar num táxi e dizer “Siga aquele carro”.
A primeira vez que a vi fora do escritório, foi num pequeno de almoço de hotel. Tentei abstrair-me, acreditar que não podíamos ter as duas escolhido Viena na mesma altura, quando o frio congela o cérebro. Lá estava ela a usar o tapete rolante mágico que transforma pão de ontem em torradas frescas de hoje e a recolher croissants miniatura. Sentou-se com um homem que assumo ser outro agente secreto, mas fingiam ser um casal apaixonado. Estavam ambos em missão, certamente, e como isto se trata da vida real e não de um filme, as pessoas têm de satisfazer as necessidades básicas: comem, dormem e vão à casa de banho. Levantei-me do meu lugar e fingi querer mais uma fatia de queijo, apenas para contornar a mesa dela. E sim, tenho a certeza de que ela me viu, reduzi a intensidade dos meus passos e fiz movimentos em câmara lenta para garantir que me reconhecia, mas manteve-se muito bem no seu papel, parecia mais uma desconhecida num inocente pequeno-almoço. A única coisa que me desiludiu foi a saída dela da sala, com uma banana e um iogurte escondidos para nenhum dos funcionários perceber. Pensei que estas profissões tinham regalias diferentes. Lanchinho a meio da manhã, à tarde e ainda uma ceia pomposa à noite. Bem, pode ser só o hábito português de levar sempre uma merenda.
Mais recentemente, estava a caminhar para me encontrar com o meu clube de escrita, e vejo-a ao longe. De início não queria acreditar, mas, assim que me aproximei, consegui reconhecer-lhe os traços. O porte altivo, os gestos rápidos. Só podia ser ela. Naquela tarde, em vez de um homem, tinha um cão. Estava perfeitamente disfarçada, devo dizer. Usava um gorro felpudo daqueles que agora voltaram a ficar na moda e que claramente não são adequados para a falta de frio de Lisboa. Mas ninguém lhe tira a aparência luxuosa, digna de um filme dos anos 80. Uma verdadeira diva. Quanto ao cão, questionei-me se fazia parte do seu próximo plano. Também estava devidamente embalado, protegido por uma capa às flores que tinha grossura suficiente para estar repleto de plástico bolha ou com um colete anti-balas. Das duas, uma. Pareciam os dois destinados a atrasar a multidão que caminhava na rua, provavelmente porque esperavam alguém. Infelizmente não era eu, estava inocentada pela minha actividade nerd. No entanto, na próxima sessão do clube em que discutirmos este texto, as coisas podem mudar de figura. É possível que me agarre, coloque num canto e me apague as memórias que tenho dela e, claro, me roube estas frases todas. A verdadeira identidade da Gertrudes pode ficar comprometida depois deste texto, e um agente secreto sabe que só pode viver nas sombras que esticam no chão ao final da tarde.
Questiono-me sobre o tipo de missões que recebe. Imagino que esteja munida de milhares de horas de treino. Consegue agarrar pessoas pelo pescoço e imobilizá-las com movimentos simples e graciosos. Também aposto que tem as frases certeiras assim que consegue apanhar alguém com a boca na botija, não me parece ser pessoa de deixar coisas por dizer. É implacável e consegue sempre deixar a identidade escondida, escuda-se no “efeito da cara comum” e desaparece sem deixar uma única migalha para contar a história.
Claro que penso todos os dias em chegar ao escritório e dizer-lhe “Eu sei, mas podes ficar descansada, que esse teu segredo levo-o comigo para a cova”, só que seria um erro grave no meu percurso de vida. Primeiro, já não vai só comigo, porque, entretanto, já partilhei convosco, leitores, que agora vão andar de olhos bem abertos na vossa vida e identificar outros agentes secretos da mesma organização. Segundo, sei que ela ia negar até ao fim e dizer aos quatro ventos que sou uma louca. Que não é propriamente mentira, mas é desagradável. E lá começava, novamente, a rádio alcatifa, agora sobre mim. Diz que disse para aqui e diz que disse para ali, não estou com disposição para isso. Tenho de me resignar à minha condição, trabalhar oito horas por dia e ser a única que sabe, em segredo, a identidade secreta da Gertrudes.



História tão engraçada!