pequenas alucinações
Às vezes não sei se vivi realmente um determinado momento ou se o inventei na minha cabeça. Com isto não me estou a gabar de ter uma capacidade criativa esplêndida e de conseguir criar cenários tão vívidos na minha cabeça que até me confundo. São mesmo momentos que vivemos quando estamos sozinhos e que se distinguem pela espetacularidade ou estranheza e não temos ninguém ao nosso lado para podermos comentar ou comprovar que existiu. E, com o tempo, essa memória vai esfarelando e perdendo os contornos ao ponto de eu não conseguir distinguir se sonhei ou se aconteceu verdadeiramente, fica numa caixinha que bordei mentalmente com o nome “pequenas alucinações”.
Por exemplo, a minha vizinha toca piano e a minha casa fica inundada por Bach e Mozart todos os dias da minha semana. Já estou habituada a acordar sábado de manhã num recital. Às vezes perde a cabeça e toca quarta-feira às onze da noite. Reviro os olhos, mas aumento o som da televisão e sigo caminho. Só que houve um dia especial. Estava eu em teletrabalho e começo a ouvir Taylor Swift no piano. E penso que estou a delirar, mas percebo claramente que estava correcta. Claro que, nestes momentos, estou sempre sozinha, não há ninguém em casa comigo então tenho de desfrutar em silêncio. À noite conto esta história ao jantar, mas ninguém acredita e ela nunca mais tocou Taylor Swift. Depois começo a questionar-me “será que fui eu que, efectivamente, ouvi mal e troquei?”. E volto a mim e tenho a certeza, estava ali, nota por nota, podia ter gravado com o telemóvel, mas achei que a pianista ia introduzir no repertório e tornar-se recorrente. Bach, Mozart e Taylor Swift.
Tenho muitos destes delírios e, com o tempo, deixo de conseguir destrinçar a realidade da ficção. Episódios da minha infância que sinto que tiveram alguma magnificência, uma interação com alguém na rua, um dia em que consegui superar os meus medos, uma amizade incrível que fiz. No outro dia lembrei-me de uma rapariga que conheci numa viagem a Bruxelas, era um dia de greve e estávamos as duas prestes a perder o avião, mas falámos a viagem toda no autocarro, enquanto íamos para o aeroporto, e ela garantiu-me que ia conseguir apanhar o meu e, efetivamente, consegui. Desta memória estou cem por cento certa, mas há outra. Uns dias mais tarde lembro-me de a ter encontrado no metro em Lisboa e as duas pudemos partilhar que apanhámos os respetivos voos naquele dia e ela disse-me que tinha adoptado um cão. Contrariamente ao que costumo fazer, voltámos a não trocar contactos nem redes sociais e ela desapareceu da minha vida e eu da dela. Se hoje a encontrasse no metro, não a conseguia reconhecer, já não lhe vejo os traços na minha memória, nem a cor do cabelo, nem a roupa que usava. E então acho que sonhei esse segundo encontro, que talvez nunca mais a tenha visto e ela, afinal, não tenha apanhado o avião de volta para Portugal.
Ninguém consegue hoje comprovar que isso aconteceu nem desfazer essa memória, porque só eu experienciei estes momentos. Gostava de ir a um programa da máquina da verdade, com um polígrafo que identificasse memórias falsas. Que em vez de verdade ou mentira, devolvesse verdade ou delírio. Lá estava eu, presa à cadeira e com o braço apertado com a manga que mede a tensão arterial e tinha ali, o dj do polígrafo a analisar todas as curvas e contracurvas da minha memória para me devolver alguma sanidade.
A verdade é que eu agora sei perfeitamente que a minha vizinha teve um dia em que se desviou dos clássicos e tocou Taylor Swift, mas daqui a dez anos vou duvidar desta experiência e assumir que todos tinham razão e que fui que sonhei um dia à tarde no sofá e inventei isto na minha cabeça, porque era a música que queria ouvir. Eu sei que estava bastante lúcida nesse dia, com o ouvido apurado, mas a fé que eu tenho nas minhas próprias memórias tem um prazo de validade. Não é dos prazos estanques de “consumir até”, penso que é mais um “consumir de preferência”, mas tem limite.
Devo confessar que essas memórias que estão no limbo, trazem alguma magia à minha vida. Talvez porque me colocam nessa situação desconfortável de nunca saber a verdade e acabam por abrir uma porta para pequenos momentos de ficção na minha vida, o que me permite aceitá-los. Eu quero que seja verdade que a rapariga da viagem a Bruxelas tenha tido aquele breve encontro comigo, porque significa que a magia acontece, que a vida proporciona momentos em que consegues fechar o ciclo com alguém com quem não vais manter uma relação duradoura, mas com quem tiveste um momento especial. Espero mesmo que ela tenha adoptado um cão. Às vezes é bom não ficar com o contacto ou não ter ninguém que consiga comprovar o que aconteceu, deixar alguma coisa dentro da cartola do mágico e acreditar que vai esvoaçar uma pomba branca de vez em quando na nossa vida, mas que nunca deixa penas no chão que a eternizem.



Tão bonito!
Mas eu também gostava de ter essa máquina da verdade, tanto para recordações sobre as quais a minha família discorda como para uma que gostava que não tivesse acontecido, que fosse mesmo partida da memória.
Que texto lindo, amiga. Na escrita este é dos temas mais interessantes… estas pequenas alucinações acontecem a todos os escritores, até aos de não ficção. Às vezes a magia é mesmo a lição que se tira, mesmo que seja uma memória falsa.. no final, pelo menos a lição é real. Amei! ❤️