enterrar os vivos
Tenho uma certa resistência em enterrar quem ainda continua a esbracejar para fora da terra, com unhas e mãos encardidas, e me impede de fazer o luto. Principalmente os que eram amigos e já não são. Não estou a falar dos amigos de verão que conhecemos numa noite de karaoke ou num bar aleatório e que as memórias foram saindo ao mesmo ritmo que a pele bronzeada ganha cor de cal. Refiro-me aos amigos que nos deixaram uma marca tão profunda que temos a pele cravada com buracos que se vão alastrando, e que só nós conseguimos ver.
Quero que descansem em paz esses amigos que continuam a respirar. Mas como posso fazê-lo se eles continuam por aí, com sangue a correr nas veias e a viver no mesmo planeta que eu? O luto dos vivos é algo com o qual ainda não me acostumei a viver, parece que respirar fica incómodo e existe sempre um vazio, mesmo quando o telemóvel está constantemente a vibrar com mensagens, a sala está cheia e a agenda já não aguenta nem mais um evento. E, mesmo assim, falta ali alguma coisa.
Existem vários enredos para esta história, e eu já experienciei a maioria deles. Os pedidos de desculpa que aparecem com um atraso de anos, anos esses atrelados às tentativas de retomar o tempo perdido da amizade que nunca volta exatamente ao que era. Fica resolvido, final feliz e créditos a passar na sala no final do filme, mas essas duas pessoas já não encaixam bem na vida uma da outra. Nem todos os cenários são tão dramáticos, também existem as que, efetivamente, funcionam. Há uma pausa por tempo indefinido e depois, com a erosão do tempo e das discussões, tudo fica mais plano, mais polido e é possível continuar a escrever o mesmo livro. A chama da reaproximação dá-se, limpam-se as teias de aranha e continua tudo como era.
Depois existem os silêncios de quem nunca teve uma conversa final. Essas são as cicatrizes mais profundas. Eu sou profissional em silêncios prolongados no tempo, se puder evitar todo o tipo de conflito, sou a primeira pessoa a tirar a senha dessa fila. Não recuso nenhuma conversa que queiram ter comigo, mas se puder evitar, escondo-me num buraco apertado e brinco às escondidas com o tempo. Enfrentar a derradeira conversa é que não. E, com o tempo e a distância lá decide aparecer a coragem. Começo a percorrer todos os caminhos e a encontrar as palavras que podiam ter sido ditas, vejo com clareza que o meu silêncio foi o catalisador daquela perda, fui eu que escolhi apagar aquela amizade da minha vida. O tempo que eu preciso para conseguir alinhar os meus pensamentos não é justificável, tendo em conta a realidade das outras pessoas. Passámos a viver em tempos diferentes e multiversos que não se cruzam.
Enterrar os vivos quando sabemos que fomos nós a pressionar o gatilho é um processo de luto acompanhado pela sombra da culpa. Ela está sempre lá a querer protagonismo. Às vezes decido passar pelo meu cemitério das amizades, colocar umas flores aqui e ali, acender uma velinha pelo que vivemos, reviver e sentir que foi bonito. Depois, chego a essas campas penosas, as que não têm data de fim porque nunca existiu sequer um término oficial. As grades da campa já esverdeadas pela ferrugem e pelo bolor. E está sempre lá uma pessoa perto da campa a fumar um cigarro debaixo de uma árvore numa cadeira de praia reclinável. “Não tens vergonha?”, grita-me. E grita-me tão alto que se torna ensurdecedor. Eu quero reviver as memórias e concentrar-me nos momentos bons, mas há um ruído tão forte que não me permite centrar. Existe um peso que me empurra para o chão, como se o meu almoço tivesse sido tripas à moda do Porto e a gravidade não me conseguisse segurar mais. “Recordar é viver” foi a maior mentira que já me contaram.
Limpo a terra dos joelhos e tento sair daquele sítio que me atormenta. Só que, por muito que eu decida sair de lá, ele não sai de mim. Penso, com muito mais frequência do que gostaria, nas mensagens e nos momentos que gostava de partilhar, mas que ficam obrigados a esvoaçar no vácuo. Ficam ali numa caixa de sapatos que vou enchendo com o tempo, recortes e memórias da minha vida, fotos de momentos, vídeos dos concertos que devíamos ter partilhado porque aquela era a nossa artista. Vou atulhando essa caixa de coisas, tantas que começam a sair pelos cantos e eu esforço-me para não dar importância e fingir que não passou assim tanto tempo.
A Taylor Swift veio a Portugal e devolveu-me uma amiga que tinha perdido pelo caminho da vida e que estou tão feliz por poder dar-lhe a mão novamente. A Rosalía voltou e fiquei com esperança de que o mesmo fenómeno se pudesse dar, um milagre no meio dos terços, dos véus e das auréolas. Que o sentimento de união fosse tão forte que superasse os buracos na pele. Só que nada disso aconteceu. E eu continuo a não querer deixar que a terra arrefeça, tenho uma esperança infantil naquilo que eu quero desesperadamente que se materialize.
Com estes anos de perdas e reencontros, tenho sentido a importância de nos sentirmos responsáveis pelas decisões que tomamos. Só que eu passo muito facilmente da responsabilidade para a culpa, parece que vivo viciada em bater com um pau de pregos no meu corpo, massacrar-me pelas decisões que tomo. Talvez isso seja um tema para outro texto, não me quero dispersar. Quero apenas garantir que sou uma pessoa que abocanha as segundas oportunidades e que tem sempre espaço para acreditar que a vida vai limpando as nuvens para conseguirmos desfrutar do sol. Mesmo que ele por vezes escalde. Desta vez prefiro sentir a dor de ter vivido do que a paz assombrada do silêncio. Por favor, levem os meus fantasmas, só não me levem as memórias.



Ai, Beatriz. Este texto tocou-me de uma maneira especial...
E parabéns, porque a tua escrita é mesmo bonita, daquelas em que mergulhamos e não queremos sair ❤️
Sim, para tudo!!!!