café con durón
Mais um concerto da moda, mais uma voltinha. Lá vão elas de lenço à cintura e rede de pesca na cabeça tirar fotos e fazer vídeos para o TikTok. Sou do tempo em que umas calças de ganga e uma t-shirt serviam, mas hoje é preciso convidar o capitalismo a entrar nas nossas casas e escolher para o armário mais uma saia de lantejoulas que se usa uma só vez na vida e uma t-shirt estampada com todos os álbuns para fingir que ouvimos mais do que três músicas do artista.
Está na moda ir a concertos, mas acima de tudo, é essencial mostrar que se viveu aquele momento e que foi o mais feliz de sempre. Se reunissem os telemóveis todos num cacifo à entrada, acredito que metade das pessoas não colocavam lá os pés, ficavam em casa a fazer vídeos das marmitas virais da semana para ver se aumentavam o número de seguidores. Não se enxerga nada nestes concertos a não ser um mar de telemóveis que se erguem nas mãos suadas, parece que estão todos a gravar um documentário. Bem sei que ele diz para tirarem mais fotos, mas não levem tudo tão à letra, conhecem tanto o álbum que nem sabem ler nas entrelinhas. Eduquem-se.
“Ai, eu amo o Bad Bunny”. Amas a tua mãe e chega. Ouviram um álbum com umas cadeiras de plástico na capa e estão armados em fãs. Para se ser fã é preciso fazer uma licenciatura sobre o artista, passar nos testes e saber as músicas de cor. Se não vais para o concerto ser uma histérica e berrar mais do que o cantor, então mais vale ficar em casa de pautas na mão a estudar para o próximo. Banalizou-se gostar, gosta-se de tudo e um par de botas. Depois dizem que gostam de música latina. Eu já vos apanhei na curva, só gostam da música da moda. Estiveram os guerreiros do reggaeton a lutar todos estes anos pela libertação do género em Portugal, foram chamados de azeiteiros, bimbos, com falta de gosto musical, para agora estar na moda. Lutaram tanto e nem uma medalha de participação trouxeram para casa, trouxeram ao peito uma máquina fotográfica de plástico com uma luz insuportável.
Os que mais me encantam são mesmo os intelectuais que apareceram de charuto nos dedos e monóculo no olho direito a dizer que este artista, afinal, é um grande activista, luta pelas causas nobres do mundo e que foi com este novo álbum que provou ser um grande homem. E os intelectuais precisam sempre de uma justificação política para admirarem alguém. A resposta nunca pode ser só “Sim, gosto.”, parece que estão sempre num teste de português “Justifique a sua resposta.”. Não sei se ficaram sem internet em dois mil e vinte e dois, mas nesse ano existiu um álbum exatamente com o mesmo propósito: mostrar os problemas de Porto Rico, um manifesto social e político. O artista pegou na gentrificação, feminismo e colonialismo, meteu tudo num álbum, mexeu bem e saiu aquilo. Em Portugal houve silêncio. Ninguém ouviu porque “ai que horror reggaeton”, então nem perderam tempo a analisar as letras das músicas.
Para quem gosta dele apenas porque ele é um grande homem, não sei se ainda não traduziram as músicas, mas, no concerto, ele continua a cantar as letras ligeiramente degradantes e imundas que afligiam estes seres iluminados da sociedade, letras essas que eu passo a citar:
“Si tu novio no te mama el culo
Pa’ eso que no mame
Baja pa’ casa que yo te lambo toa’
Mami, yo te lambo toa’
Baja pa’ casa que yo te rompo toa’, ey
Que yo te rompo toa”
Não sei se isto vos perturba, mas a mí me da igual. Ah, e já me esquecia de um pequeno pormenor, a casita também é um acto de feminismo estrondoso, vê-se ali diversidade e zero objectificação da mulher. Um brinde a todes!
Pelo menos foi um espaço que deu muito conteúdo para as influencers que Portugal insistiu em tornar famosas e retirar-lhes a possibilidade de trabalharem com o Excel. Vídeo com o outfit do dia, carrossel com todas as perspectivas dos palcos, vídeos a dançarem com as amigas, um forrobodó. Até bandeiras de Porto Rico encomendaram, ao que chegámos.
Lá no fundo, as outras é que estiveram bem e saíram antes do concerto acabar. E têm toda a legitimidade para o fazer, foi um concerto monótono e com muitas paragens pelo meio. Onde é que já se viu um artista cantar duas horas e meia e precisar de tempo para descansar, mudar de roupa e cumprimentar os fãs? Ainda por cima cantou imensas músicas com o mesmo ritmo, podia ter feito covers dos Santamaria, mas optou pela própria discografia, um reggaeton deslavado e cheio de sintetizadores, um disparate. Repetitivo. Lamento que não tenha tido a criatividade de convidar uma banda para cantar as músicas num ritmo de salsa ou algo mais latino, mas pronto, fica para a próxima.
Por fim, existem os que se intitulam como os fãs de verdade, que gritam as músicas nos ouvidos alheios e sabem todos os “Ey” do artista no momento exato. Não sei se foram lá para darem um concerto ou presenciarem um, mas fica muito confuso assim. Fizeram ensaios no mesmo espaço das marchas populares? Qual é a necessidade de dizerem a todas as pessoas que são fãs desde o “Te Boté”? Além de ninguém querer saber, ninguém conhece essa música, não está na setlist e os fãs de concertos só se regem por essa lista. E ainda choram com a música surpresa porque, coitadinhos, estiveram muitos anos à espera para ouvirem aquilo. Concentrem-se, estão a perder tanto tempo com as vossas lágrimas e com essa visão turva que nem conseguem viver o momento.
Foram dois dias muito intensos e certamente ficam muitas coisas por observar, mas, ainda assim, consegui recolher muita informação detalhada para construir este texto. Vou continuar aqui, de perna alçada, com um copo fosco de whisky e duas pedras de gelo a criticar tudo o que os outros fazem. A mim é que não me apanham nesses amontoados de gente louca, mas faço a coleção completa desta caderneta de cromos em casa.
(Nota: comprei uma saia de lantejoulas, sou fã deste o “Te Boté”, fui sempre azeiteira por gostar de reggaeton, chorei para cima de três vezes no concerto e também acho que ele é um grande activista social. Espero que se sintam tão criticados como eu me senti com o meu próprio texto.)



Eu proibia mesmo telemoveis em concertos porque sao egoísmo e falta de vida. A partir dos 25 anos se um concerto é um pico da tua vida epa tens de rever prioridades. E nao acho que se necessite de uma licenciatura porem nao entendo pagar uma data de guito e estar desconfortavel para ver alguem de que nem se gosta muito. Deixei de ir a concertos basicamente. Com a porcaria dos telemoveis é muito difícil. Quanto ao resto é tranquilo sempre achei reggaeton péssimo. E a casita é bem parva. Acho e giro um porto riquenho ter tanto sucesso porque irrita americanos patetas.
este texto fez justiça pelos guerreiros do reggaeton ❤️